Se o transporte público é fundamental para grande parte dos estudantes, em Suzano, na Grande São Paulo, este direito tem se tornado sinônimo de burocracia e custos extras. 

Com a tarifa a R$6, o município conta com passe livre ou meia tarifa para alunos do ensino fundamental até o ensino superior, mas conseguir o benefício exige dois cadastros no ano, tempo perdido e dinheiro para pagar a renovação.

O passe livre é gerido pela Secretaria de Educação em parceria com a empresa Radial Mais Transporte, responsável pelo cartão Onpag, aceito nas viações do município. 

Passageiros em fila para atendimento na Central da OnPag @Guynever Maropo/Agência Mural

Tem direito ao passe livre alunos de baixa renda (comprovada pelo Cadastro Único do governo federal), que morem em Suzano a no mínimo dois quilômetros de distância da instituição de ensino ou da Estação Suzano da CPTM. Os demais estudantes de escolas públicas ou bolsistas de instituições privadas têm direito à meia tarifa.

Porém, para ter acesso aos benefícios é preciso arcar com taxas. Quem tem direito ao passe livre paga a revalidação do cartão, no valor de R$30 ao ano (ou o equivalente a cinco passagens). Já quem tem direito ao desconto de 50% na passagem precisa se recadastrar no sistema duas vezes por ano – e pagar R$30 a cada renovação.

As inscrições para o 1º semestre de 2026 se iniciam em 12 de janeiro e seguem até 30 de abril.

A universitária Yasmin Silva Santos, 20, é uma das estudantes que conseguiu acesso à meia-tarifa, mas precisa pagar pela renovação do cartão aceito no ônibus, duas vezes ao ano. São R$60 por ano. Yasmin utiliza vans, parte da frota de Suzano, para chegar até a estação da cidade e pegar o trem.

É um valor alto, principalmente se considerarmos que é pago duas vezes ao ano, sem nenhuma necessidade, já que [o benefício] não é integral. Isso acaba fazendo falta no orçamento, desabafa.

Terminal de ônibus de Suzano @Guynever Maropo/Agência Mural

O Benefício que custa caro

Para a estudante de psicologia Tainá Batista, 23, que reside no Jardim Revista, pagar pela renovação do benefício a cada semestre é injustificável. Ela utiliza meia tarifa e mora a mais de 20 quilômetros da faculdade, que fica  no município vizinho, Mogi das Cruzes.

Ela compara o sistema de Suzano ao Bilhete Único de São Paulo, porém o sistema da capital paulista exige recadastramento apenas uma vez ao ano, sem taxas.

Poderia ser assim aqui em Suzano. Dessa forma, seria menos burocrático para o estudante, que tem que pedir as assinaturas na faculdade e comprovar a cada seis meses que ainda está na instituição, argumenta.

Como o passe livre de Suzano funciona?

O passe livre é regido pela Lei Complementar nº 226/2013 e visa promover a inclusão e permanência escolar. Ele é restrito a alunos de escolas públicas e bolsistas de instituições particulares.

O estudante que não tiver direito à gratuidade total pode solicitar a meia tarifa, que concede desconto de 50% no pagamento da passagem. O programa disponibiliza duas viagens diárias (ida e volta), com cobrança de meia passagem vigente para cada trajeto.

Máquina de recarga do cartão de estudante no catraca da OnPag @Guynever Maropo/Agência Mural

Entre julho e agosto de 2025, a Secretaria de Educação registrou 2.967 solicitações, sendo 1.909 recadastramentos. O prazo para envio de documentos começou no dia 1º de julho e foi até o dia 30 de setembro. O envio apenas dos documentos foi estendido até 15 de outubro.

Segundo a pasta, os pedidos indeferidos geralmente decorrem da falta de comprovação de baixa renda ou do não cumprimento da distância mínima exigida.

Cartões queimados e prejuízo no bolso

Além da burocracia para recadastramento, passageiros reclamam que o Cartão Onpag tem apresentado falhas operacionais, como a queima dos chips. Pegos de surpresa, na hora de pagar a passagem, os usuários precisam emitir uma segunda via, que custa R$60, valor corresponde a 10 passagens na cidade.

O trabalhador de mercado Samuel Santos, 20, foi surpreendido quando o cartão não passou na catraca.

‘A gente já trabalha contando com esse dinheiro de vale-transporte e temos que tirar do próprio bolso. Não acho certo, ainda mais por ser um valor alto pela segunda via’

Samuel, morador de Suzano

Caso semelhante ocorreu com a socorrista do Samu, Patrícia de Souza, 45. Ela contou que descobriu o problema do chip queimado quando já estava na van e sem dinheiro em espécie. Precisou pagar a passagem via Pix.

Ao procurar atendimento no posto da Onpag, no terminal, foi informada que, para transferir os créditos existentes teria que pagar a taxa de R$60 da segunda via. Sem o pagamento, os créditos seriam perdidos.

Não acho justo pagar o valor correspondente a 10 passagens para renovar um cartão que nem é minha culpa de estar queimado. Tinha colocado R$60 reais de crédito e iria ficar perdido, mas aí tive que desembolsar mais R$60, ou seja, R$120. Sendo que não serão R$120 de créditos. Um abuso com os passageiros, disse Patrícia.

A Radial Mais Transportes e a Prefeitura foram questionadas sobre as falhas, mas não responderam os questionamentos até o fechamento da reportagem.

Agência Mural

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