O mundo tomou conhecimento dos ataques de 8 de janeiro de 2023. As imagens de depredação com vândalos trajados da bandeira brasileira estamparam publicações em todo o planeta. Houve quem não tenha levado a sério o movimento, dadas as imagens de acampamentos em frente a quartéis militares pedindo por intervenção ou registros emblemáticos de grupos expressando sua fé diante de pneus em estradas. Mas aquela tentativa de golpe de Estado teve início muito tempo antes, e o 8/1 ainda causa repercussões na política nacional.
Entre os dias 2 e 30 de outubro de 2022, há o marco formal do início dessa trama, que além de questionar urnas eletrônicas, previa emprego da força, supressão da vontade popular e até assassinatos, como o futuro mostraria. Naquele mês, 156,4 milhões de brasileiros estavam aptos a escolher os rumos do governo federal, até então governado pelo ultradireitista Jair Bolsonaro (PL). Com uma diferença de 2,1 milhões de votos (pouco menos de dois pontos percentuais), o petista Lula receberia a missão de um terceiro mandato à frente do país, mas, para um grupo expressivo da política nacional, não poderia exercê-lo alguns planejaram que ele sequer seguisse vivo.
O 8 de janeiro ainda não teve fim. E, três anos depois, a Agência Pública reconta como chegamos até aqui. E quem nos trouxe.
8/1 – Como chegamos aqui
Jair e o golpe
As investigações PF, que dão base à denúncia apresentada pela Procuradoria-geral da República (PGR), apontaram o ex-presidente Jair Bolsonaro como o responsável por planejar e liderar a organização criminosa criada com o objetivo de instaurar um golpe de Estado. Entre as provas reunidas, estão: a reunião ministerial realizada em 5 de julho de 2022 para debater a ruptura democrática; discursos e ações para descredibilizar o processo eleitoral; pressões ao ex-comandante do Exército, general Freire Gomes; e a elaboração do decreto que estabelecia o golpe de Estado.
A denúncia da PGR mostra que a organização criminosa se constituiu em 29 de julho de 2021 e perdurou até 8 de janeiro de 2023, quando golpistas invadiram e depredaram os prédios dos Três Poderes. O primeiro ato da trama, de acordo com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi a transmissão ao vivo de uma reunião com embaixadores nas dependências do Planalto – encontro onde Bolsonaro questionou a segurança das urnas eletrônicas, sem apresentar provas.
O vice na chapa de Bolsonaro, em 2022, general Walter Braga Netto, foi denunciado pela PGR como cúmplice no comando da organização criminosa. Ele teria ajudado o ex-presidente a usar a estrutura administrativa do Estado para influenciar setores militares a aderir ao golpe.
Em 12 de novembro de 2022, segundo a investigação, um núcleo de militares com formação em forças especiais do Exército se reuniu na casa de Braga Netto. O grupo teria apresentado as ações que impediriam a posse de Lula e restringiriam o exercício do Judiciário.
Os militares, descreve a PGR, planejaram a criação de um gabinete vinculado à presidência da República após a consolidação do golpe. Além de Braga Netto, o novo gabinete seria composto por outros integrantes do Exército e civis, também liderados pelo General Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).
O núcleo classificado como crucial no plano golpista era composto também pelo ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem; o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier; o ex-ministro da Justiça, Anderson Torres; o ex-ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, além do ex-ajudante de ordens, tenente-coronel Mauro Cid. Ele atuou como porta-voz de Jair Bolsonaro e foi peça-chave na investigação ao delatar o plano criminoso.
Passo a passo do julgamento de Bolsonaro
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1. Indiciado
Bolsonaro foi indiciado junto a 33 pessoas em novembr de 2024, por tentativa de golpe de Estado e organização criminosa. Ele já havia sido indiciado por falsificar cartão de vacina, em março de 2024, e por apropriação das joias sauditas, em julho.
2. Denunciado
Bolsonaro foi denunciado em 18/02/2025 com 33 pessoas por golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada e danos ao patrimônio da União, ligados à invasão de Brasília em 8 de janeiro.
3. Réu
A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) foi aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 26/03/2025, Bolsonaro e os demais denunciados tornaram-se réus.
4. Julgado
Durante o julgamento, são coletadas provas e testemunhas são ouvidas. A PGR pediu a condenação de Bolsonaro. Desde 18 de julho ele precisa usar tornezeleira e, desde 4 de agosto, está em prisão domiciliar.
5. Condenado
A 1º Turma do STF decidiu, nesta quinta-feira (11), condenar Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos e 3 meses no julgamento da trama golpista.
Quem é quem: os núcleos da trama golpista
O relatório da Polícia Federal apontou que os envolvidos na organização da trama golpista dividiram-se em seis frentes de atuação. A investigação retrata a criação de uma estrutura previamente ordenada, com a individualização de conduta penalmente relevante a cada investigado. Com base no relatório, a Procuradoria-Geral da República reduziu a organização a cinco núcleos principais.
Núcleo 1: “Crucial”
Planejamento e articulação dos atos golpistas de 8 de janeiro.