Os primeiros painéis da exposição são dedicados à questão indígena, mostrando a dominação sobre os povos originários. Na sequência, as imagens retratam a vida dos escravos e os trabalhos a que eram submetidos. A gente fica com essa imagem de que os escravos trabalhavam na plantação, a gente carrega muitos clichês. Quando olha para essas imagens, se dá conta da variedade de trabalhos, afirmou Gabriela Longman.
Eles eram barbeiros, serventes dentro de casa, moíam o açúcar, saíam para caçar junto com os cientistas. Tem uma série de ofícios, aqui [na imagem] da sapataria, tem um sapateiro ali no centro, mas quem está executando o grosso do trabalho são os escravos, relatou.
Longman ressalta que as imagens revelam uma sociedade bipartida, em que há uma distância social enorme e condições extremamente violentas. A curadoria relata que Debret não poupava, nas obras, detalhes de violência e o protagonismo do trabalho de escravizados africanos no Brasil, que foram tradicionalmente invisibilizados nas representações artísticas do cotidiano.
A curadora aponta que, não à toa, o tema da violência atravessa as obras dos artistas contemporâneos na exposição. Por que revisitamos Debret hoje? Por que os artistas olham para isso com tanta ênfase? Porque existem transformações gigantescas na sociedade e existem permanências, disse.
Debret chegou ao Brasil em 1816, integrando a Missão Artística Francesa como pintor da corte luso-portuguesa. Durante os 15 anos que viveu no país, não apenas atendeu encomendas do governo, mas criou imagens sobre a diversidade social e política que caracterizava o Rio de Janeiro, durante as longas sessões sentado na calçada.
Obras inéditas
Entre os destaques, estão duas obras inéditas. Reconhecida por investigar as marcas deixadas pela escravidão e pelo racismo estrutural, Rosana Paulino participa com a obra inédita Paraíso Tropical. A artista revisita a concepção histórica do Brasil como um paraíso idílico - imagem que atravessou séculos de representações - para revelar uma narrativa que expõe um território marcado pelo extrativismo, cuja fauna e flora foram amplamente exploradas.
O artista Jaime Lauriano apresenta a instalação Brasil através do espelho, também inédita e que aborda temas como etnocídio, apropriação cultural e democracia racial. Lauriano expõe ainda, na mostra, a série Justiça e Barbárie, composta por oito fotografias de violência encontradas nos meios de comunicação, em especial cenas de linchamento de homens negros que circulam na mídia.
Lauriano usa títulos de obras de Debret nas fotografias, de forma a tensionar o presente e o passado, questionando o que realmente mudou na dinâmica social brasileira. Depois do que aconteceu no Rio de Janeiro duas semanas atrás, essa parede [com as fotografias] ganhou uma atualidade maior do que já tinha, disse Longman ao se referir à ação policial no Complexo do Alemão que resultou em mais de 120 mortos.
A mostra conta também com obras de Anna Bella Geiger, Bruno Weilemann, Cássio Vasconcellos, Claudia Hersz, Denilson Baniwa, Eustáquio Neves, Heberth Sobral, Laercio Redondo, Livia Melzi, Sandra Gamarra, Tiago Gualberto, Tiago SantAna, Val Souza e Valerio Ricci Montani.
Uma sala, no espaço expositivo, é dedicada a um desfile sobre Debret concebido pela escola Acadêmicos do Salgueiro para o carnaval de 1959, registrado em imagens pelas lentes do fotógrafo Marcel Gautherot (1910-1996).
A exposição fica em cartaz até 17 de maio do ano que vem, de terça a domingo, das 10h às 17h.
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Debret | Debret em questão - olhares contemporâneo | Museu do Ipiranga