por Beatriz Santana*
Catarina Lins de Aragão, mais conhecida como Catarina do Amparo, Catarina DeeJah ou Mciririca, é um dos nomes mais singulares da cena artística olindense. Multiartista por definição, transita entre as artes plásticas, a música e o frevo, sempre guiada por uma relação profunda com a cidade onde nasceu e vive.
Filha de pais apreciadores de arte, cresceu em um ambiente em que o cotidiano e a criação se misturavam. A casa da família, o Ateliê Iza do Amparo, localizada no Sítio Histórico de Olinda, é ao mesmo tempo lar, galeria e ponto de encontro de expressões culturais diversas. Aqui a gente abre a janela e respira cultura, respira vida. É uma cidade que tem um charme que lembra o interior, meio bucólica, mas também é boêmia, diz Catarina.
Graduada pela universidade a céu aberto, como ela mesma define Olinda, Catarina constrói uma obra que reflete a pluralidade do lugar onde vive. Em suas criações, o popular e o contemporâneo convivem naturalmente. Tenho desenvolvido um trabalho de tipografia que contextualiza esse meu imaginário e esse amor que tenho pela cultura daqui, conta.
A artista lembra com emoção o momento em que, ainda criança, observava Olinda à noite da janela do apartamento do pai. A cidade pulsava. As luzes oscilavam. Era metafísico. Falei: meu Deus, isso é um campo de força, é a guerra-magia mesmo. Ao mesmo tempo que era assustador, era incrível. Essa mistura de mistério e encantamento se tornaria uma marca da sua produção artística.
O carnaval e seus mestres são o combustível de Catarina. Foi assim quando recebeu o convite para criar o primeiro estandarte da Troça Elétrica, projeto da banda Nação Zumbi com Siba e a Fuloresta. Eu fiquei meio perdida. Fui bater na casa do Seu Fernando, do Guadalupe. Ele me mostrou o processo e eu fui fazendo do meu jeito. Fiz questão de levar pra ele, que disse: você fez e fez do seu jeito. Isso, pra mim, é um grande mestre, porque ele não impõe, relembra.
A experiência reforçou seu desejo de respeitar a tradição sem abrir mão da liberdade criativa. Não quero tirar o espaço nem o holofote de quem vive disso e tem essa ciência, completa.
Para Catarina, o frevo é a expressão maior desse equilíbrio entre passado e presente. O frevo é expressão, tem que se renovar. Eu adoro ir pro Vassourinhas e ver a galera tirando os frevos originais. Tem versões, adaptações, mas eu gosto mesmo dos originais. E é isso: viver aqui é estar entre vários mundos, entre a fantasia e a realidade.
Carnaval como linguagem
Em suas criações visuais, Catarina transforma elementos do carnaval em experimentação contemporânea. As bandeirinhas de papel picado são uma releitura dos tradicionais estandartes e refletem o cotidiano de uma cidade quase sempre em clima de festa. Já os confetes, que chama de sopa de letrinha carnavalesca, ganham forma de sombrinhas de frevo e casinhas recortadas em papel, lançadas pelas ladeiras de Olinda durante o carnaval.
Na música, também segue o caminho da mistura. Se aventura pelo forró e por experimentações com samplers, como o que criou a partir da introdução da Orquestra de Pau e Corda. Embora suas experimentações causem estranhamento em alguns ouvintes, ela segue fiel à busca por novas formas de expressão sem perder o vínculo com o popular.
Não espere de mim o que todo mundo já lhe dá. O lema de Catarina resume sua trajetória. Aprendi com meu amigo Chico Science que a gente pode ter os pés fincados na lama, mas a mente tem que estar na imensidão.
* Beatriz Santana é estudante de Jornalismo da UFPE.
As reportagens publicadas aqui fazem parte da parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o projeto de extensão Cartografias do Frevo, desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.
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