A valorização do que é público e a aversão à modernidade desenfreada foram temas recorrentes nas composições de Lô Borges desde sua estreia em grande estilo com Clube da Esquina, lançado em 1972. A cidade e os afetos que por ela circulam foram o tema de duas das canções compostas pelo músico nesse disco: a primeira é a balada pop Paisagem da Janela, e a outra, a psicodélica Trem de Doido, antepenúltima faixa do disco.

Em Trem de Doido, nos encontramos no centro sujo de Belo Horizonte em plena ditadura militar. A influência dos Beatles é evidente: a guitarra de Beto Guedes e o baixo, tocado por Toninho Horta, ao percorrer diversas regiões melódicas dá mesmo a sensação de movimento (Lô estaria a caminhar pelo centro na madrugada?). Junto da bateria carregada, cria-se um ambiente musical intenso que, no entanto, contrasta com a suavidade ingênua do canto de Lô.

A letra labiríntica trata dos ratos que povoam a cidade e que não param de perseguir o eu lírico do mesmo modo que a palavra trem assume os mais variados sentidos em Minas Gerais, os ratos de Trem de Doido são vários, reais e metafóricos. E estão por toda parte, na praça, no mercado e até mesmo dentro das casas, mas a postura que o canto e a letra evocam é sempre a de uma indiferença tranquila, a ausência de medo.

(Medo, no entanto, que os músicos de Clube da Esquina sentiam na pele: acossado pelos censores da ditadura militar, Lô empreendeu longas viagens após a sua estreia musical, só voltando a gravar um disco, A Via Láctea, em 1979.)

Já Paisagem da Janela, como Lô Borges já disse em entrevistas, possui uma atmosfera da maior juvenilidade. Ao contrário de Trem de Doido, a cidade que se apresenta tem agora um ar interiorano, consequência da letra e do arranjo: a igreja vista da janela, guitarra e piano marcando alegremente o tempo, e a voz de Lô, sempre cândida, embora trate de cores mórbidas, homens sórdidos e velórios A cena poderia se passar numa cidadezinha qualquer, mas pode, também, tomar lugar em Belo Horizonte, onde a canção foi composta. O bairro de Santa Tereza, onde residiam os Borges, guarda, apesar de sua proximidade com o centro de BH, muitas características do interior do Estado: como não é cortado por nenhuma grande avenida, o bairro conformou-se não como lugar de passagem, como outros recantos da cidade, mas como local de chegada constituiu-se, ali, uma vida social diferente, com aposentados tomando café à porta de casa, vizinhos que se chamam pelo nome e violões e pandeiros nas esquinas, características que, em certa medida, se observam ali ainda hoje.

Em BH, residem cerca de dois milhões e quinhentas mil pessoas. Apesar das proporções de cidade grande, a capital mineira é costumeiramente descrita como uma cidade hospitaleira e tranquila, lugar ideal, como já disse Fernando Brant, para beber cachaça, tomar cerveja, conversar fiado e, conforme manda a secular tradição mineira, conspirar. Embora essa visão, se levada ao extremo do romântico, possa ser um instrumento a mais para silenciar as disputas em torno dos sentidos da vida urbana (e elas são numerosas, como o movimento a favor da tarifa zero no transporte público e a pressão do capital privado para inviabilizá-lo demonstrou), Paisagem da Janela não incorre neste engano. A cadência cordial dos acordes do piano estão lá, a voz de Lô Borges é suave e Nelson Ângelo, o guitarrista, desenha riffs que remetem a algo de juvenil, mas a letra possui um tom de aviso, de repreensão que, de novo, contrasta com a sonoridade. Fala-se da cidade, o sujeito está dentro dela, mas também está sem lugar. O vivido e o imaginado se cruzam novamente:

Quando eu falava dessas cores mórbidas

Quando eu falava desses homens sórdidos

Quando eu falava desse temporal

você não escutou

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