Reportagem Território Por diversas vezes, Matos citou faixa 1, 2 e 3 do Minha Casa, Minha Vida, não mencionando que em maio deste ano entrou em vigor a faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida, que permite financiamento para famílias com renda de até R$ 12 mil. Em outra fala, disse que a habitação popular era para todas as famílias.
De acordo com o último Censo, 38% da população recifense sobrevive com meio salário mínimo por mês. Recife possui 295 favelas, com 361.548 moradores, o que representa 24,28% da população recifense. Ou seja, não colocar uma faixa de renda ou mesmo uma faixa no Minha Casa, Minha Vida é dar oportunidade de o mercado imobiliário construir tão somente para as faixas 3 e 4.
Ataques à Lei dos 12 Bairros
Em um desenrolar aparentemente orquestrado, não demorou muito para que a Lei dos 12 Bairros virasse a grande vilã da construção de habitacionais. Como se fosse unicamente a lei e não todos os determinantes históricos, econômicos e sociais que impedisse que a população mais pobre morasse em bairros com boa infraestrutura.
Representante do setor imobiliário, o arquiteto Sandro Guedes afirmou que quem se posiciona contra a Lei dos 12 Bairros o faz por medo, porque agora, com a nova lei da prefeitura, vai ter Minha Casa, Minha Vida em bairros nobres do Recife. Eu não digo que se corre o risco, eu digo que vai acontecer Minha Casa, Minha Vida em Casa Forte, Minha Casa, Minha Vida em Boa Viagem e Minha Casa, Minha Vida na rua da Aurora, afirmou, entre um e outro elogio à nova legislação.
Na sequência, o militante Davi Lira, do Movimento de Luta por Teto, Terra e Trabalho (MLLT) organização que ocupou o colégio Americano Batista, imóvel pertencente ao Governo de Pernambuco parecia estar obedecendo a um script irrompendo ao microfone afirmando que “vai ter pobre morando em Boa Viagem! pobre morando nas Graças! pobre morando na Jaqueira!”. Algum incauto que entrasse naquele momento no plenarinho poderia até pensar que a lei defendida por Davi, ex-candidato a vereador de Jaboatão dos Guararapes pelo PSB, teria a capacidade de abolir a propriedade privada.
Logo depois, Felipe Matos foi mais prudente. Inicialmente, afirmou que vislumbra, sim, ter Minha Casa, Minha Vida no Jiquiá e no Bongi. No entanto, talvez tenha se empolgado com a fala anterior do militante, então foi mais além. Vai ter Minha Casa, Minha Vida na rua Aurora, repetindo o que Sandro Guedes havia dito ao anunicar a existência de um projeto pronto para a rua. Vamos aguardar e ver para qual faixa do MCMV ele será.
Curiosamente, um dos vereadores que defendeu a Lei dos 12 Bairros foi o bolsonarista Eduardo Moura (Novo). Mas o fez tão somente para se contrapor à prefeitura de João Campos (PSB), à qual faz oposição. O vereador ficou no plenarinho até fazer sua fala ou melhor, seu corte para as redes sociais e foi embora. Ainda usou do seu pouco tempo para ofender o secretário Felipe Matos dizendo que ele seria melhor como secretário de propaganda, já que “falava muitas mentiras”.
Diante da oposição rarefeita, o discurso ao longo da audiência foi mudando notavelmente. Se, no começo, os representantes da prefeitura chegavam até em falar em mais tempo para debater, lá pelas 13h o secretário Felipe Matos se dirigiu a um representante de uma comunidade no Rosarinho que reclamou que a prefeitura do Recife estava ameaçando retirar os moradores para fazer uma rua dizendo que ele deveria era torcer para a nova LPUOS ser aprovada logo, porque aí o local viraria uma Zeis, daí não não haveria despejo. “A Vila Esperança manda lembranças”, pensou esta repórter nesse momento. Também disse que ficou aflito ao ler que um casarão nas Graças havia sido demolido, pensando que poderia ser um dos que estão inclusos na proteção da nova lei.
O prazo para que os vereadores sugerissem emendas ao PL da prefeitura já terminou. Há dezenas de emendas a serem discutidas e analisadas pela comissão o que ainda pode mudar bastante a LPUOS, para melhor e para pior. Com associações de bairros enfraquecidas ou cooptadas, a discussão da lei passou longe da sociedade. Uma pequena parcela só nas últimas semanas se atentou às mudanças, talvez tarde demais. A comissão especial da Câmara que cuida deste projeto de lei presidida pelo vereador Eduardo Mota, também do PSB deve se reunir novamente na próxima semana.
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