A partir desta quinta-feira (03), o SESI-SP leva aos palcos de suas unidades no interior de São Paulo o solo Meu Remédio, inspirado na própria história do ator, cantor e compositor Mouhamed Harfouch, em uma turnê de 24 sessões por cinco cidades. 

A estreia é em Rio Claro, com sessões dias 3, 4, 5 e 6 de setembro no Teatro do SESI Rio Claro, av. M-29, 441 - Jd. Floridiana. A circulação segue por Itapetininga, Sorocaba, Campinas e Ribeirão Preto, com apresentações programadas até 1º de novembro. De graça.

A turnê de Meu Remédio pelo interior paulista faz parte da programação teatral do SESI-SP, que leva a seus teatros produções do circuito profissional escolhidas pela excelência artística, sem abrir mão da pesquisa de linguagem e da diversidade cultural na programação.

Escrito, produzido e interpretado pelo próprio ator, com direção de João Fonseca (dos musicais Djavan – uma história pra contar, Tim Maia: Vale Tudo, Cazuza: pro dia nascer feliz e Cássia Eller, entre outros espetáculos), o solo autobiográfico chega premiado (Melhor Solo pelo Prêmio Arcanjo 2025 e Melhor Dramaturgia na FITA - Festa Internacional de Teatro de Angra dos Reis) depois de reunir mais de 10 mil espectadores em três temporadas seguidas de casa cheia no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Com mais de 30 anos de carreira, Harfouch é filho de pai muçulmano sírio e mãe católica brasileira, criado no Rio de Janeiro nos anos 1980 entre duas heranças que levou tempo para conciliar. Meu Remédio nasceu, segundo o próprio autor, com vocação de estrada: “Eu quis criar esse espetáculo pra ser meu espetáculo de bolso, pra eu poder ter sempre debaixo do meu braço e levar pra onde pudesse”, conta. “Ele foi pensado pra ser simples, pra funcionar em qualquer lugar e poder ser adaptável.”

SESI Viagem Teatral

A programação teatral do SESI-SP leva ao palco uma seleção de espetáculos do circuito profissional escolhidos por excelência artística, pesquisa de linguagem e capacidade de adaptação a diferentes espaços de encenação. Por meio dela, plateias infantis, infanto juvenis e adultas do interior paulista têm acesso a criações de companhias premiadas no cenário nacional contemporâneo, o que amplia a diversidade e a qualidade da oferta cultural na região.

O projeto SESI Viagem Teatral, principal braço desse programa, leva produções de artes cênicas a unidades da instituição em todo o estado de São Paulo com três objetivos centrais: democratizar o acesso a espetáculos de qualidade, com entrada gratuita ou a preços populares; formar plateias, cultivando o hábito e o gosto pelas artes cênicas em públicos de todas as idades; e difundir a produção artística brasileira contemporânea, com ações formativas complementares, como oficinas e palestras, que ampliam o impacto da passagem por cada cidade.

Comédia afetiva

Em 2020, ainda na pandemia, Harfouch e Fonseca haviam estreado on-line um primeiro monólogo do ator, Homem de Lata, sobre paternidade. Passada a pandemia, era desejo do diretor remontá-lo nos palcos, mas o ator sentiu que o texto tinha ficado datado e decidiu escrever uma história nova. Foi o início de Meu Remédio, que levou dois anos para ficar pronto. “Eu escrevia uma parte e deixava, tipo vinho, encostado”, relembra. “Achei que realmente eu não ia montar essa peça.”

Coube a Fonseca não o deixar desistir. “Se não fosse o João, eu não sei se eu teria elaborado tudo, porque ele ficava no meu pé”, reconhece Harfouch, que assumiu sozinho quase todas as frentes do projeto. “Nesse espetáculo eu fui meio polvo: escrevi, produzi, fiz a trilha, atuo”, brinca, e preferiu não também dirigir. “Eu tinha curiosidade, pensei em dirigir. Aí eu falei: não tenho condição, já faço muita coisa. E o João foi um parceiro fundamental, porque ele tem um olhar muito doce, muito assertivo.”

O processo de escrita funcionou também como elaboração pessoal, ainda que Harfouch nunca tenha feito análise. Muitos psicólogos, terapeutas e psicanalistas que assistiram ao espetáculo acharam que só podia ser fruto de anos de terapia e chegavam a chamá-lo de “paciente em remissão”. “Eu sempre dizia que nunca tinha feito análise”, conta. “Na verdade, o teatro foi meu grande terapeuta.” A definição que prefere para o gênero da peça nasceu da mesma lógica, quando descartou o rótulo “comédia terapêutica”, sugerido por parte da crítica: “É uma comédia afetiva”, corrige. Terapêutica, explica, soa clínico demais. Ele já perdeu a conta de psicólogos que o procuraram depois de assistir ao espetáculo.

Há ainda uma coincidência que o próprio autor gosta de destacar: Meu Remédio estreou, em janeiro de 2025, no mesmo teatro carioca onde Harfouch debutara como ator, 30 anos antes. “Tudo ligado. Muito simbólico”, resume. O resultado é, segundo ele, deliberadamente despretensioso. Chegou a resistir a incluir música e violão em cena, por temer parecer “aquele ator que quer mostrar que é polivalente”, até que as canções se encaixaram sozinhas na narrativa, como Carimbador Maluco, de Jorge Ben Jor, que dialoga com uma fala do próprio texto: “Meu nome era um carimbo, um rótulo, um crachá.”

Mais de 10 mil espectadores e duas temporadas esgotadas

A trajetória de Meu Remédio já rendeu números que poucos solos autorais alcançam. Depois da estreia carioca, em janeiro de 2025, e de passagens pela FITA (Festa Internacional de Teatro de Angra) e por Juiz de Fora, o espetáculo ficou em cartaz no Rio até agosto: praticamente um ano seguido de fins de semana em cena, segundo o próprio ator.

Em São Paulo, foram duas temporadas consecutivas: primeiro no Teatro Santos Augusta, entre fevereiro e abril, onde, nas palavras de Harfouch, “a gente bombou, lotou, esgotou”; depois no Teatro Multiplan, no Morumbi Shopping, onde soma quase cem apresentações. No total, mais de dez mil pessoas já viram a peça.

A crítica também endossou: em resenha de quatro estrelas, o jornalista Miguel Arcanjo Prado descreveu Meu Remédio como uma “sofisticada ode à ancestralidade” e “um antídoto contra o preconceito”.

Já Tânia Brandão, do blog Folias Teatrais, brincou com as farmácias vizinhas ao teatro para recomendar a peça: “esqueça a farmácia e escolha ir ao luminoso teatro, para tratar de si com mais carinho”.

Direção de João Fonseca é focada no ator

A direção de João Fonseca, ele explica, “é focada na atuação do Mouhamed e na sua capacidade em interpretar diversos personagens diferentes apenas através do seu trabalho corporal e vocal”. Fonseca diz que “o cenário e o figurino vão se transformando junto com o personagem, e a luz preenche o palco vazio ajudando a criar todos os lugares da jornada dele”.

João conheceu Mouhamed na Cia Limite 151 onde o ator fez uma substituição num espetáculo que havia dirigido. “Desde então queríamos trabalhar juntos. Antes da pandemia começamos a elaborar um projeto que teve que ser interrompido e se transformou no Homem de Lata, espetáculo on-line de sucesso. Assim que acabou a pandemia, retomamos a ideia de um espetáculo presencial e daí nasceu Meu Remédio.”

Diversidade e pertencimento

Se o ponto de partida é a própria biografia do ator (um pai que fala outra língua, uma família paterna que ele nunca conheceu pessoalmente porque ficou na Síria, um nome que soava estranho no Rio de Janeiro dos anos 1980), o alcance da peça extrapola a origem árabe.

“Esse espetáculo, na verdade, comunica com todo mundo que é imigrante. Não é sobre uma cultura, mas é sobre diversas culturas”, afirma Harfouch. Ele guarda um episódio recente como símbolo desse alcance: um jovem ator judeu assistiu ao espetáculo e voltou no fim de semana seguinte acompanhado do próprio pai, também judeu, que “adorou o espetáculo”.

Para o autor, o cerne da peça não é a xenofobia em si, mas o que ela provoca em quem cresce tentando pertencer a um lugar que não é totalmente seu. “A partir do momento que uma criança tenta repelir o seu nome e a sua origem só porque quer ser aceita, a gente está falando de camadas profundas, de um preconceito que o imigrante, ou o filho de imigrante, acaba importando: querer pertencer a uma coletividade que não é sua e negar a sua própria para poder existir”, explica.

Não é incomum, segundo ele, encontrar espectadores que já assistiram ao espetáculo cinco vezes e que, a cada nova sessão, levam um parente diferente. Crianças também aderem: “As crianças piram no espetáculo, porque é muito lúdico”, conta, lembrando que a turma inteira do filho, de nove anos, foi assistir. Não por acaso, a sinopse oficial resume o mote do texto numa frase que também funciona como sua segunda linha de assinatura: todo nome guarda uma história para contar.

Há também uma camada mais silenciosa por trás da peça. Harfouch estreou o espetáculo em janeiro de 2025 e, um mês depois, perdeu a própria mãe, a mesma que interpreta em cena, ao lado do pai e de outros personagens da família. “Minha mãe nem viu a peça. Não teve tempo”, diz. “São coisas que a gente não sabe o porquê, mas eu intuo que o teatro me fez escrever isso para ser meu processo de luto e de passagem.”

“Quando você fala da sua verdade, ela comunica, ela ecoa”, resume o ator, citando Liev Tolstói e Ariano Suassuna como referências para a ideia de que o regional, quando é verdadeiro, se torna universal. Há quem já sugira a Harfouch outros desdobramentos para a história (um livro, uma série, um filme), mas por ora ele prefere esgotar a temporada em palco: “Ainda tenho o Brasil inteiro para viajar com essa peça,” projeta.

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Gustavo de Freitas Lara - Peça entra em cartaz nesta quinta (03), em Rio Claro

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