Entre batidas de rap, coreografias e letras autorais, crianças e adolescentes transformaram o palco em espaço de denúncia e reflexão crítica. Educação, acesso à cultura, justiça racial, direitos da infância, feminicídio e violência institucional apareceram nas rimas e encenações conduzidas por jovens artistas de Heliópolis, na zona sul de São Paulo.

Esse é o cenário do Festival Helipa Music. Criado em 2010, o evento acontece todos os anos com a proposta de transformar a música em ferramenta de expressão artística e reflexão social. Toda organização é feita por crianças e adolescentes de Heliópolis, para o público infantojuvenil da comunidade. Assim, o festival estimula autonomia, senso coletivo e leitura crítica do território.

Yaz, apresentador do Festival Helipa Music @Isabela do Carmo/Agência Mural

Meses antes da apresentação, os participantes se dedicaram à composição das letras, aos ensaios e às apresentações. É um processo que, ao longo dos anos, consolidou o projeto como espaço de fortalecimento da identidade periférica e compartilhamento das experiências que atravessam o cotidiano da favela.

Yaz Nascimento, 20, integrante do Observatório De Olho na Quebrada e um dos organizadores do evento, afirma que quer romper os estigmas associados à cultura periférica. Ele ainda vê que expressões como rap e hip hop são tratadas de forma preconceituosa, como manifestações de menor valor cultural.

O festival reafirma que a cultura periférica também é potência, conhecimento e transformação social. A música aproxima debates urgentes das vivências de crianças e adolescentes e contribui para que esses jovens se reconheçam como sujeitos de direitos, artistas e produtores de cultura em seus próprios territórios, diz.

Edição 2026

O 14º Festival Helipa Music, última edição do evento, ocorreu em 23 de maio, organizado pela UNAS (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis). O evento reuniu meninos e meninas dos 11 CCAs (Centros para Crianças e Adolescentes) do bairro, em apresentações que misturam poesia, música e performances atravessadas pelo debate sobre direitos humanos.

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Alice, aluna no CCA Lagoa tocou um instrumento musical no evento @Isabela do Carmo/Agência Mural

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Pouco antes da chegada à Rua da Mina, o som da garotada já tomava conta do palco. Quem tomou o microfone e soltou a voz foi Alice Viana, 14, integrante do CCA Lagoa. Entre a expectativa e a empolgação, a adolescente afinou o ritmo e relembrou os versos que ajudou a escrever. A música aborda os impactos do feminicídio e homenageava mulheres vítimas desse tipo de violência no território.

‘Nos últimos tempos, os casos de feminicídio têm aumentado, e muitas mulheres ainda não sabem como denunciar. A música surge como uma forma de promover conscientização sobre esse tema

Alice,integrante do Centro para Crianças e Adolescentes

Entre um ensaio e outro, ela contou que a participação no festival fortaleceu sua confiança e transformou a forma como se comunica. A jovem passou a ver a arte como ferramenta de acolhimento e conscientização dentro da comunidade.

Mais que isso: às vésperas de ingressar no ensino médio, Alice acredita que a música possibilita transformações sociais. Por isso, sonha em seguir conectada à arte e usar a própria voz como instrumento de cuidado e escuta.

Por meio da arte, as pessoas podem transformar o mundo a partir da escuta, da reflexão e da troca de experiências. É também uma forma de desenvolver consciência política.

Agência Mural

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