Cabe muita história no nome de um distrito. Afinal, é ele quem vai representar um grande número de bairros, conectados à esse único nome. São 96 distritos na complexa divisão territorial de São Paulo, alguns mais conhecidos, outros nem tanto.
O Jardim Alto Alegre, meu bairro, fica no distrito do Iguatemi, nas correspondências aparece como São Rafael e a maioria da população fala que mora no fundão de São Mateus, para ficar mais fácil de explicar, já que os três distritos estão na mesma subprefeitura. Talvez o Iguatemi seja o menos conhecido, mesmo sendo o maior em área entre os três.
Foi explicando isso para Paulo Talarico e Anderson Menezes, diretores da Agência Mural, que a ideia desta crônica surgiu. Eu disse a eles: Não é São Mateus nem São Rafael. É Iguatemi. O Paulo fez uma provocação (no bom sentido) sobre identidade e pertencimento, e comecei a pensar que tudo isso começa com o nome.
Há mais de 40 anos no bairro, a Padaria Satélite é um ponto de referência histórico da região @Matheus Santino/Agência Mural
Segundo a própria Prefeitura de São Paulo, até a década de 1960, a área que hoje corresponde ao distrito do Iguatemi era formada por sítios e chácaras e conhecida como Guabirobeira e Iguatemi. Por algum motivo, o segundo prevaleceu como oficial.
Quando minha família chegou aqui, no fim da década de 1970, ainda era tudo mato. O lugar passava por uma segunda onda de loteamentos e recebeu muitos trabalhadores da zona leste e do ABC, em sua maioria migrantes nordestinos, como a minha família, vinda de Alagoas.
Eles já moravam na região de São Mateus, no Jardim Imperador, bairro um pouco mais desenvolvido à época. Mas meu pai, o filho mais velho, conta que, um dia, meu avô o colocou no carro dizendo que ia mostrar o terreno que havia adquirido. Pela janela, meu pai só via mato e ruas de terra e diz que ficou cabisbaixo, se perguntando por que estavam indo tão para o fundo da cidade.
Hoje o Iguatemi mudou bastante e já não se sabe mais para onde crescer, com uma densidade demográfica acima da média da cidade. O Desenvolvimento foi marcado em volta de duas avenidas principais: Ragueb Chohfi e Bento Guelfi, que acumulam grandes e pequenos comércios. Segundo o censo do IBGE de 2022, são mais de 149 mil pessoas morando nos 15 bairros que compõem o distrito.
CEU Alto Alegre é uma importante área de lazer e cultura na região @Matheus Santino/Agência Mural
Iguatemi é uma palavra de origem indígena, como grande parte dos nomes de bairros em São Paulo. Sempre quis saber o que significava, mas não existe um consenso. Pesquisando, vi que pode ser rio ondulante, rio verde escuro ou rio das canoas emproadas.
Na zona leste, virou nome de uma estrada, de um bairro e de um distrito. Em Pinheiros, virou nome de uma rua que foi encurtada com a chegada da avenida Faria Lima e depois de um shopping luxuoso.
Fiquei imaginando se existiam rios parecidos aqui e lá, se eram verdes ou ondulantes. Rios que foram soterrados, como a maioria dos rios da nossa cidade, para dar lugar ao progresso. Lá, ainda mais triste. Imagine: onde antes corria um rio ondulante, hoje corre um rio de dinheiro na avenida que é símbolo do capitalismo brasileiro.
Em contraste com Pinheiros, o Shopping Negreiros é o primeiro do Iguatemi e levou o cinema para o distrito @Matheus Santino/Agência Mural
Não por acaso, quando se pesquisa Iguatemi no Google, o primeiro resultado é justamente o shopping. Sempre que falo onde moro, alguém diz mó boy, hein, porque essa palavra geralmente é associada ao shopping de rico. É sempre uma saga explicar que existe outro Iguatemi e que é um distrito da zona leste.
Uma vez pedi um Uber e no meio do caminho o motorista estranhou e perguntou moço, você não tá indo para o Shopping Iguatemi?, quando expliquei que não, ele pareceu bem decepcionado. Fora os motoristas que falam que eu não moro, me escondo. Mas isso é papo para outra crônica.
Assim como o rio que gosto de imaginar que aqui existia, o nome do distrito vai se apagando do imaginário da população paulistana e dando espaço ao shopping.
Veja só, depois de anos, o Metrô finalmente está chegando aqui, com a Linha 15-Prata do monotrilho. A maioria das estações da linha é identificada pelo bairro em que está, mas uma das poucas que não seguem essa lógica é logo a que está em construção no Jardim Iguatemi.
Construção da futura estação Jacú-Pêssego no Iguatemi @Matheus Santino/Agência Mural
Decidiram chamar a estação de Jacú-Pêssego, nome da avenida que passa ao lado e liga a região a Itaquera.
Reclamação vinda direto do tribunal das minúsculas causas, né? Eu sei, pode parecer meio extremo mesmo. Sei também que existem outros motivos para se nomear uma estação. Mas, para mim, é mais uma vez o Iguatemi sendo apagado do imaginário e do mapa da cidade, dessa vez, do Mapa do Transporte Metropolitano.
Apesar de não ser tão conhecido e do rio ondulante chique de Pinheiros ter roubado o protagonismo da palavra, insisto em dizer que meu bairro fica no distrito do Iguatemi. Como disse lá em cima, tudo começa com o nome. A identidade e o pertencimento de quem mora aqui começa em dizer o nome do lugar onde seu pé pisa.